terça-feira, 1 de setembro de 2009

Repousos....


"Não gosto de escrever um texto e mandá-lo imediatamente para a redação do jornal. Escrevo com certa folga de tempo, para que eu possa deixar o texto dormir um sono reparador antes de joga-lo às feras.
Assim como as pessoas , certas coisas precisam descansar para recomporem-se . No caso do texto, é fundamental para mim esquecê-lo por um pequeno período. Quando volto a pôr os olhos nele , horas ou dias depois, consigo detectar melhor suas falhas , repetições ou parágrafos confusos : é a hora da faxina, de limpar o que está sobrando , e só então libera-lo para seu destino. Lamento pelos vestibulandos que não podem apelar para esse recurso, escrevendo contra o relógio suas redações , sem chance de revisá-las com a cabeça fresca.
O repouso das coisas é cada vez mais raro nesse mundo onde todos estão atrasados para alguma coisa. Diariamente, temos que decidir , optar e cumprir prazos para ontem, sem muita chance de deixar as resoluções tirarem uma soneca antes de serem efetivadas. Fica assim prejudicada a clareza necessária para detectar nossos erros e acertos.
No calor de uma discussão levamos a sério todas as bobagens que nos dizem , passando rapidamente para o contra-ataque e assim dinamitando a relação. Se pudéssemos levar nossa mágoa pra cama e com ela dormir, e no tamanho que ela realmente tem : miúda diante de coisas muito importantes do que as palavras rudes que, na noite anterior, escaparam sem querer.
Um sim dito às pressas, um não que foi verbalizado por medo, um silêncio onde deveria haver uma argumento: vacilos póstumos. Pudéssemos botar para dormir nossas dúvidas, acordaríamos mais sábios e menos impetuosos. Mesmo as paixões velozes merecem um certo resguardo, uma espiada mais distanciada, para ver onde estamos nos metendo. Cadê tempo, porém, para o afastamento necessário de nós mesmos, para melhor nos enxergar?
A realidade não permite tais romantismos. Vence quem toma decisões rápidas , caso de cirurgiões , artilheiros, policiais, motoristas. Fica cada vez mais difícil contar até dez antes de tomar uma atitude. Sorte a minha que posso me dar ao luxo de trabalhar e viver com relativa calma, deixar esse texto dormir na escuridão do computador desligado e só amanhã acender a luz , fazer nele alguns afagos e apertar, finalmente a tecla send. Como cantava Gal Costa, “ a vida não é mais do que o ato da gente ficar no ar antes de mergulhar.”
Por Martha Medeiros.

4 comentários:

Francisco disse...

Dri.
Este texto da Martha é perfeito. Também acho que antes de publicarmos algo, sempre é bom revisar, editar, acrescentar ou apagar tudo de vez.
O problema é quando deixa-se "o texto" ad infinitum no rascunho, sem edições, correções, ou acréscimos esperando talvez, uma "auto publicação" rsrsrsrs
Como disse no meu post "...ninguém, nem mesmo um texto, merece ficar pra sempre no rascunho..."
Entendeu??...Nem eu!! KKKKKKKKKKK
Quanto ao teu post anterior, confia nas alquimias da bruxinha Nina. Ela "enfeitiça" como ninguém!! rsrsrsrsrs
Beijãozão!

Solange Maia disse...

Sensacional.

Esse texto acaba de me modificar...

Sensacional...

Coube como luva.

Obrigada e beijo carinhoso

Déia disse...

Sensacional!!! Minha sorte e que minha profissão tb me permite isso... um paciente traz um problema, eu não preciso de uma resposta imediata, levo pra casa, vou digerindo a história, até eu conseguir efetivamente ajudá-lo!

Amei.. essa pressa dos dias de hj, acabam comigo!

bj

Barbie Girl disse...

Sem comentários...

É um texto fabuloso!

bjks