segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Dinheiro, vaidade e vazio...




Às vezes, um pensamento se instala dentro de nós motivado pelos acontecimentos mais incongruentes. Primeiro, teve a repercussão da crônica de quarta passada, sobre a barriguinha da modelo Lizzie Muller. A maior parte dos e-mails que recebi era de homens jurando que valorizam suas mulheres do jeito que são e que buscar um corpo perfeito é paranoia nossa, e eu acredito neles, então por que sucumbimos a um padrão irreal e fazemos loucuras para atingi-lo?
Semana passada, também soube que numa reunião de condomínio foi aprovado um orçamento de R$ 87 mil para decorar o hall e o salão de festas de um prédio. O bom gosto e o conforto de um ambiente coletivo e pouco utilizado precisa passar por uma conta abusiva?
Vou seguir tergiversando. Estive no Uruguai no último feriado e fiz um programa que nunca faço: fui ao cassino. Não me atraem os jogos de azar, mas minha filha, 18 anos recém feitos, ficou curiosa em conhecer o ambiente e topei, até porque recentemente nos divertimos vendo o ótimo filme Se Beber, Não Case, que se passa em Las Vegas. Então, lá fomos nós perder uns trocos de livre e espontânea vontade. Mas enquanto a gente brincava de jogar, com dinheiro contado para a experiência, havia à nossa volta gente apostando alto, largando dezenas de notas de US$ 100 sobre a mesa da roleta como se aquilo não valesse nada. Perdiam, jogavam mais, perdiam mais, e não eram viciados, que vício é doença e respeito. Eram mulheres e homens gastando simplesmente porque tinham grana sobrando. É o mesmo impulso de quem compra uma bolsa de R$ 10 mil: compro porque posso, porque quero, porque faço com meu dinheiro o que bem entender. Mas uma bolsa de menos dígitos não surtiria o mesmo efeito? A pergunta que engloba todas até agora aqui feitas: por que tanta gente está precisando de tanto?
Perfeição, beleza, luxo. Eu não seria louca de desprezar a vaidade humana. Encaro essas buscas como algo legítimo, natural e saudável — até certo ponto. Mas qual o ponto certo? O meu limite é diferente do limite de quem se contenta com artigos de camelô, e também diferente do limite de quem só exige do bom e do melhor, sem concessões. Ou seja, “até certo ponto” é uma total abstração. Pessoas estabelecem a própria média de acordo com seu bolso e suas carências.
Sendo assim, uma medida genérica poderia ser a do vazio existencial de cada um. Será que estamos gastando em cirurgias estéticas desnecessárias, em grifes de preço imoral e em hábitos quase cafonas de tão ostensivos por um prazer pessoal genuíno, ou apenas para nos compensar? É fato: quanto mais sem sentido está a nossa vida, mais ficamos tentados a consumir. Quanto menos admiramos a nós mesmos, mais necessitamos da aprovação alheia. Quanto mais equivocado foi o caminho que escolhemos, mais tentamos dar a ele algum significado fictício. Quanto menos sabemos lidar com nossa solidão, mais precisamos atrair holofotes.
Passei essa semana tergiversando, como se pode notar, tudo para concluir o óbvio.
Temos gastado muito e nos dado pouco valor.
( por Martha Medeiros)


10 comentários:

Sonhαdorα disse...

A maioria das pessoas se proecura em ter/possuir como se isso fosse importante demais...claro que cada caso é um caso,mas conheço pessoas que compram por comprar,pra mostrar as outras pessoas que elas PODEM...e deixam a desejar no quisito Pessoa* (coração,sinceridade,solidariedade)humanidade mesmo,se importam apenas com seus umbigos...é f*&@ isso...

Francisco disse...

Dri.
Tanto a Martha, como vc que escolheu perfeitamente o texto, estão com razão.
O "gastar" compulsivamente é doença. E está provado. A bipolaridade é uma das causas.
Ter dinheiro para gastar é bom? Não! É ótimo!! Mas existem pessoas que fazem do dinheiro, o seu Deus, e exercem com ele um poder ilusório.
Pior que os quem gastam compulsivamente, são os que gastam sem bom gosto, e se tornam bregas, ridículos e acham que estão agradando.
Fazer o que! C´Est La Vie, Dri Cherrie!! rsrs
Beijãozão!

Déia disse...

PERFEITO!
É JUSTAMENTE O QUE ACREDITO!

Vivemos em busca de algo mais! Da a´provação dos outros, do corpo perfeito, da bolsa de marca.. mas incrivelmente nada disso nos preenche...

Acho que procuramos o preenchimento errado.

Ajudar alguem, fazer caridade, buscar a sí mesmo, amar a sí e ao próximo, ter uma vida simples, apreciar e cuidar da natureza, sempre trouxeram muito mais benefício do que o botox no rosto!

Precisamos de botox da alma!

bj

Gislene disse...

SABE, DRIII
O MATERIALISMO, DEFINITIVAMENTE, NÃO PREENCHERÁ NOSSOS CORAÇÕES...
NOS DARÁ ALGUNS MOMENTOS DE ALEGRIA, E COM CERTEZA PASSARÁ...
ME PERGUNTO, SERÁ QUE ESSAS PESSOAS SÃO REALMENTE FELIZES, OU, ACHAM QUE PODEM COMPRÁ-LA NUMA LOJA DE GRIFE CARA...
BEIJOS, GISLENE.

Gislãne disse...

lindooo texto
bjos sinceros

Ggel disse...

Martha Medeiros tem razão, como na maioria das vezes...rs
Essa busca desesperada por coisas, mudanças, etc é pra fugir da rotina, quando na verdade não resolve coisa nenhuma. A rotina se instala porque não conseguimos mais ver as coisas da mesma maneira, dai vem o tédio, que no fundo não está em nada, a não ser em nós mesmo.Por isso a getne vai ficar eternamente buscando e nunca encontrando porque não há nada para encontrar. Temos é que parar com essa mania besta de achar que os outros são sempre melhores ou que uma pessoa extremamente linda ou rica é que é feliz.; Muitas vezes esse pessoal é mais infeliz que o mais pobre e feio dos mortais. Bobagem, bobagem, bobagem, né?
beijão

Pedaços de Tempo disse...

Querida Driii,

Antes mais, obrigado pelo teu agradável comentário que deixaste no meu post “Reflexos no Douro”.

Quanto às questões do teu texto, vamos por partes:

1. Quando dizes: “...havia à nossa volta gente apostando alto, largando dezenas de notas de US$ 100 sobre a mesa da roleta como se aquilo não valesse nada. Perdiam, jogavam mais, perdiam mais, e não eram viciados, que vício é doença e respeito.” – Na minha opinião é vício sim! e doença do foro psicológico.
2. Quando dizes: “... por que tanta gente está precisando de tanto?” – porque no fundo, bem lá no fundo, não têm nada!!! Estão simplesmente vazios e acham que assim conseguem preencher tal espaço vazio, como se de uma compensação se tratasse; PURA ILUSÃO!...
3. “Mas qual o ponto certo?” – é o BOM SENSO!!! Infelizmente, é algo difícil de levar em linha de conta nos tempos de hoje. Senão, vejamos: é de bom senso que os EUA e a EUROPA “injecte” biliões de dólares e euros para recuperar o sistema financeiro bancário, quando APENAS 10%, ISSO MESMO, 10% DO TOTAL DESSA “INJEÇÃO”, permitia eliminar a fome em todo o mundo???... Será que uma dúzia de gestores de topo, ainda por cima corruptos, completamente cegos pela ganância do dinheiro e do poder, vale as milhares de vidas que se perdem pelo mundo fora por fome??? Será que o mundo não ficaria bem melhor e mais “limpo”, se em vez de perder essas milhares vidas, perdesse essa dúzia que controlam o mundo obscuro do modelo económico financeiro frágil e injusto??? Será que esse dinheiro não estaria bem melhor empregue a dar instrução/ensino e comida a esses milhares??? Certamente que SIM!!! eu acredito que no meio desses milhares se um dia lhes fosse dada as mesmas oportunidades e condições, teríamos mais gestores de topo e menos corruptos..
4. Concordo plenamente contigo quando dizes: “É fato: quanto mais sem sentido está a nossa vida, mais ficamos tentados a consumir. Quanto menos admiramos a nós mesmos, mais necessitamos da aprovação alheia. Quanto mais equivocado foi o caminho que escolhemos, mais tentamos dar a ele algum significado fictício. Quanto menos sabemos lidar com nossa solidão, mais precisamos atrair holofotes.” – mas, quando isto acontece é sinal que começamos a perder o bom senso e o sentido da razão.
5. E já que citas Martha Medeiros, então citemos outra dela que, de certa forma responda também a estas questões:

"Lembrem-se: Só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir."

E, EU ACRESCENTO: “e que ninguém nos poderá tirar!”. Certamente que não são bolsas caras, relógios de
ouro, carros topo de gama, etc, etc...

Por fim, e para terminar esta já longa escrita, que bom senso e sentido da razão, são características/atributos que
a espécie humana pouco possui. Basta lembrar-nos da resposta sábia que o Dalai Lama deu a um jornalista:

Jornalista: O que mais te surpreende na humanidade?
Dalai Lama: - Os homens... porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar
a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver
nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem
vivido.

Enfim, C´EST LA VIE!

Beijinhos com algum bom senso e muito razão,
CR/de
www.carlosribeiro-photos.blogspot.com

Kika disse...

Realmente.
O mundo está cada dia mais capitalista.
Grande parte deste dinheiro, que é literalmente jogado no lixo, poderia servir para fazer o bem a muitas pessoas.
Mas luxo é também um vício, que a cada dia faz parte da vida de mais pessoas.

Gabitus disse...

Dri,

muito "cabível" seu texto em um tempo de consumismo exagerado e valorização da aparência.

Estava lendo um livro do Jamie Oliver sobre a Itália (sim! de culinária!) e em um capítulo sobre carnes ele diz: "Alguns camponeses recebem menos que (...), mas eles se preocupam com sua alimentação, com o que consomem, de onde vem a carne que ingerem, do que esse animal se alimentou. Por isso os italianos têm a maior expectativa de vida, depois dos japoneses."

Na hora, pensei algo na mesma linha: nos preocupamos demais com o "fora", e muito pouco com o "dentro". Prefere-se entrar na faca do que prestar atenção ao que se come... é a facilidade do mundo moderno... meio triste, hein??

Beijos!!

Desabafando disse...

Texto perfeito mesmo....adorei...acho que nem tenho o que acrescentar pois concordo com tudo que foi dito nele! Tem gente que é assim pq tem esse vazio mesmo dentro de si, e outras por status, pra mostrar que tem pra esbanjar...quanta ilusão não?